O silêncio que destrói infâncias
- Ismênio Bezerra
- 27 de mai.
- 5 min de leitura

Enfrentar o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes não é tarefa de maio. É dever permanente de uma sociedade que ainda queira merecer o nome de humana.
Há silêncios que protegem. E há silêncios que condenam.
Quando uma criança sofre violência sexual, muitas vezes o primeiro muro que ela encontra não é o agressor. É a descrença. É a vergonha imposta. É o medo da família. É a omissão da escola. É a vizinhança que “não quer se meter”. É a religião quando confunde perdão com impunidade. É o Estado quando demora. É a sociedade quando só se comove em maio e esquece em junho.
O Maio Laranja é necessário. Mas ele não pode ser um ritual de calendário. O enfrentamento ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes precisa durar o ano inteiro, porque a violência também não escolhe mês para acontecer.
Os dados são duros. O Disque 100 registrou mais de 32 mil violações sexuais contra crianças e adolescentes entre janeiro e abril de 2026, aumento de quase 50% em relação ao mesmo período do ano anterior. O UNICEF e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública também alertam que a violência sexual contra crianças e adolescentes segue como uma das faces mais graves da realidade brasileira.
Mas número nenhum consegue traduzir inteiramente o que se rompe quando uma infância é violada.
A criança não perde apenas a tranquilidade. Perde a confiança no mundo. E quando o mundo adulto falha, a violência ganha uma segunda vitória: transforma a vítima em portadora de uma culpa que nunca foi dela.
O Brasil tem uma boa base legal. O Estatuto da Criança e do Adolescente afirma que nenhuma criança ou adolescente deve ser submetido a negligência, exploração, violência, crueldade ou opressão. O problema é que uma lei bonita não protege sozinha. Entre o texto legal e a vida real existe uma travessia difícil chamada rede de proteção.
Essa rede envolve assistência social, saúde, educação, Conselho Tutelar, segurança pública, Ministério Público, Judiciário, família, comunidade e sociedade civil. O UNICEF descreve o Sistema de Garantia de Direitos como um conjunto que reúne saúde, educação, assistência social, Conselhos Tutelares, Justiça, segurança pública e sociedade civil. Quando um desses pontos falha, a criança fica mais exposta.
É por isso que uma professora atenta pode salvar uma vida. Um agente de saúde pode perceber uma mudança. Um profissional do CRAS ou do CREAS pode identificar um pedido de socorro escondido no comportamento. Um policial preparado pode acolher sem revitimizar. Um líder religioso responsável pode romper o silêncio em vez de preservar aparências. Uma família madura pode escolher a criança, e não a reputação do adulto agressor.
O abuso raramente começa em praça pública. Muitas vezes ele se esconde onde deveria haver proteção: na casa, na vizinhança, no círculo de confiança, na autoridade familiar, na dependência econômica, na manipulação emocional. Por isso é tão perigoso tratar o tema apenas como problema de “monstros distantes”. A violência também veste roupa comum, fala baixo, frequenta ambientes respeitáveis e se aproveita justamente da confiança que recebe.
No cotidiano, os sinais podem aparecer como mudança brusca de comportamento, medo de determinadas pessoas, isolamento, queda no rendimento escolar, tristeza persistente, agressividade incomum ou regressões emocionais. O Ministério dos Direitos Humanos destaca a importância de atenção aos sinais, diálogo e mobilização da rede de proteção para romper o ciclo da violência.
Mas é preciso cuidado: criança não deve ser interrogada como adulta, nem pressionada a dar explicações. Ela precisa ser acolhida, escutada com proteção e encaminhada aos órgãos competentes.
A pior pergunta diante de uma suspeita não é “e se for verdade?”. A pior pergunta é “e se a gente estiver exagerando?”. Porque o preço da omissão costuma ser pago pela criança.
A exploração sexual, por sua vez, carrega ainda outra camada de brutalidade social. Ela se alimenta da pobreza, da vulnerabilidade, da ausência de políticas públicas, do turismo predatório, da cultura machista, da negligência comunitária e da ideia perversa de que alguns corpos infantis podem ser tratados como mercadoria.
É aqui que a sociedade precisa abandonar o conforto da indignação abstrata. Não basta dizer que é contra. É preciso perguntar por que tantas crianças seguem desprotegidas. Por que há territórios sem presença efetiva do Estado. Por que famílias inteiras vivem sem renda, sem escola integral, sem segurança alimentar, sem acesso a serviços. Por que a infância pobre costuma ser mais vigiada quando erra do que protegida quando sofre.
Também é necessário falar da internet. A violência sexual facilitada pela tecnologia tornou-se uma ameaça crescente. O UNICEF apontou preocupação com crianças e adolescentes expostos a exploração e abuso em ambientes digitais, ressaltando a necessidade de respostas coordenadas e centradas na criança. O mundo virtual não é separado da vida real. Ele amplia riscos, acelera contatos e permite novas formas de violência, chantagem e manipulação. As redes sociais, sem exceção, precisam e devem ser reguladas imediatamente. O discurso panfletário de "censura" não pode fazer sucumbir a proteção de crianças e adolescentes.
A escola precisa educar para a proteção, não para o medo. A família precisa conversar sem tabu. A religião precisa defender a dignidade da criança acima de qualquer pacto de silêncio. O SUS precisa acolher com técnica e humanidade. A assistência social precisa estar fortalecida. A delegacia especializada precisa ter estrutura, preparo e sensibilidade. E a sociedade precisa entender que denunciar não é destruir famílias. É impedir que uma criança seja destruída dentro delas, visto que muitas vezes essa violência ocorre no ambiente doméstico.
O enfrentamento ao abuso e à exploração sexual não pode ser refém de campanhas bonitas, flores, rosas, laços laranjas e posts institucionais. Campanha importa, mas campanha sem política pública vira decoração moral. É preciso orçamento, formação permanente, protocolos claros, equipes qualificadas, atendimento humanizado, investigação responsável e proteção continuada.
O Maio Laranja deve ser uma porta de entrada, não uma data de encerramento.
Porque criança não precisa de comoção sazonal. Precisa de adultos confiáveis todos os dias.
A infância é o primeiro território da dignidade humana. Quando uma sociedade permite que esse território seja invadido, ela não fracassa apenas na proteção de uma criança. Ela fracassa como civilização.
E talvez seja essa a frase que o Brasil precise repetir até entender: nenhuma tradição, nenhuma família, nenhuma instituição, nenhuma autoridade e nenhuma aparência vale mais do que uma criança protegida.
O silêncio pode ser confortável para os adultos.
Mas para a criança, muitas vezes, ele é o lugar onde a violência continua morando.
Se este texto tocou você de alguma forma, deixe um comentário se desejar e, sobretudo, compartilhe — o mundo precisa de mais leveza, mais leitura, mais gente disposta a refletir e mais horizontes capazes de iluminar novos caminhos.
Ismênio Bezerra
Bibliografia
OLIVEIRA, Macdouglas de. Enfrentamento ao abuso sexual infantil: guia de orientação para profissionais da educação. João Pessoa: UFPB, 2025.
OLIVEIRA, Macdouglas de. “Entre” Chapeuzinhos Vermelhos e Lobos Maus: o abuso sexual infantil e a escola enquanto rede de proteção e enfrentamento. Curitiba: Appris, 2020.
BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei nº 8.069/1990.
MINISTÉRIO DOS DIREITOS HUMANOS E DA CIDADANIA. Disque 100 registra aumento de violações sexuais contra crianças e adolescentes.
AGÊNCIA BRASIL. Disque 100 registra mais de 32 mil violações sexuais contra crianças e adolescentes.
UNICEF BRASIL; FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Panorama da violência letal e sexual contra crianças e adolescentes no Brasil 2021-2023.
UNICEF BRASIL. Proteção de crianças e adolescentes contra violências.
CHILDHOOD BRASIL. Prevenção e enfrentamento do abuso e da exploração sexual de crianças e adolescentes.
Deixe um comentário.




Comentários