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Amor à venda: quando homens e mulheres transformam afeto em mercadoria.

9 de set.
6 min de leitura

Há algo profundamente errado em parte das relações contemporâneas: estamos aprendendo a avaliar pessoas como avaliamos produtos.


Quanto vale? O que oferece? O que pode proporcionar? Tem dinheiro? É bonita? Tem status? Pode pagar o quê? Ainda me interessa? Existe alguém “melhor” disponível?


Perguntas típicas de mercado começaram, silenciosamente, a ocupar o espaço que deveria pertencer ao afeto.


E talvez uma das grandes contradições do nosso tempo seja esta: transformamos pessoas em mercadorias e depois reclamamos da superficialidade dos relacionamentos.


É preciso falar disso sem hipocrisia e sem escolher apenas um lado.


Há mulheres que selecionam homens não essencialmente pelo caráter, inteligência, sensibilidade ou capacidade de construir uma vida em comum, mas pelo patrimônio, pelo saldo bancário, pelo cargo, pelo carro e pelo padrão de vida que podem proporcionar.


Não há nada de errado em desejar estabilidade financeira. Responsabilidade econômica importa numa relação adulta. O problema começa quando o homem deixa de ser pessoa para se transformar em provedor de benefícios.


Nesse modelo, ele não precisa necessariamente ser amado, nem amar. Precisa funcionar.


Enquanto proporciona viagens, restaurantes, presentes, conforto e status, permanece interessante. Quando perde dinheiro, emprego ou capacidade de manter determinado padrão, pode descobrir dolorosamente que aquele afeto possuía uma cláusula contratual invisível.


Era amor enquanto havia retorno.


Mas seria desonesto fazer essa crítica sem olhar para o outro lado.


Há homens fazendo exatamente a mesma coisa com mulheres — apenas utilizando outra moeda.


Só mudam as moedas


Há homens que enxergam mulheres como produtos numa vitrine. Escolhem pela aparência, avaliam pela idade, comparam corpos, conquistam como quem adquire, usufruem como quem consome e descartam quando aparece uma “novidade” considerada mais atraente.


Nesse universo, a mulher também deixa de ser pessoa. Sua inteligência, história, sonhos, dores e humanidade tornam-se secundários diante daquilo que interessa ao consumidor: beleza, juventude, sexualidade e disponibilidade.


O homem que acredita que dinheiro lhe permite comprar mulheres e a mulher que enxerga homens apenas como provedores acabam aceitando uma mesma lógica: pessoas possuem preço.


Só escolheram moedas diferentes.


Um oferece dinheiro esperando beleza, juventude, sexo ou companhia. O outro oferece beleza, desejo ou companhia esperando dinheiro, conforto, influência ou status.


Pode existir consentimento entre adultos? Evidentemente. Mas consentimento não transforma automaticamente uma transação em amor.


O patriarcado apenas modernizou sua linguagem


Também é um erro imaginar que essa mercantilização nasceu com as redes sociais e os aplicativos de relacionamento.


Ela é muito mais antiga.


Durante séculos, sociedades patriarcais atribuíram papéis bastante definidos aos gêneros. Ao homem estavam associados patrimônio, poder econômico, autoridade e obrigação de prover. À mulher, frequentemente privada de autonomia econômica e jurídica, eram associados beleza, juventude, fertilidade, sexualidade e submissão às expectativas masculinas.


Casamentos também foram, durante longos períodos históricos, instrumentos de sobrevivência, patrimônio, alianças familiares e ascensão social.


Por isso, quando ainda sustentamos que o homem vale fundamentalmente pelo que possui e a mulher pelo quanto é desejável, talvez estejamos fazendo algo muito menos moderno do que imaginamos.


Estamos apenas atualizando uma velha lógica patriarcal para a linguagem do nosso tempo.


Mudaram as roupas, os aplicativos, os carros, os restaurantes e as fotografias nas redes sociais.


A equação, porém, permanece: o homem vale pelo que pode prover; a mulher, pelo que pode oferecer ao desejo masculino.


Isso não supera o machismo. Apenas o moderniza.


Transformar-se em produto não é empoderamento


Aqui surge uma questão delicada: nem toda escolha feita livremente por uma mulher representa, necessariamente, emancipação feminina.


Uma mulher adulta possui autonomia sobre seu corpo, sua vida e seus relacionamentos. Isso é indiscutível. Mas ter autonomia para fazer uma escolha não significa que a estrutura na qual essa escolha acontece seja emancipadora.


Uma mulher pode, por necessidade ou conveniência, participar conscientemente de uma relação essencialmente transacional. Pode obter dinheiro, segurança, viagens, presentes, influência ou ascensão social.


Isso não lhe retira direitos nem autoriza ninguém a julgá-la ou humilhá-la.


Mas também não transforma a relação em símbolo de empoderamento.


Porque, quando alguém precisa se converter em “produto” para alcançar aquilo que deseja, continua submetido à lógica de mercado.


E produtos são avaliados.

Produtos são comparados.

Produtos precisam permanecer desejáveis.

Produtos sofrem depreciação.

Produtos são substituídos.

Produtos são descartados.


É justamente aí que está a contradição: não existe verdadeira emancipação numa estrutura que exige da mulher sua própria mercantilização.


Ela pode obter vantagens dentro desse sistema e até exercer poder de negociação. Mas sua dignidade não está sendo ampliada quando seu valor passa a depender da beleza, juventude, sexualidade ou companhia que consegue oferecer.


Muito pelo contrário: sua humanidade está sendo reduzida a atributos negociáveis.


A liberdade feminina não deveria ser medida pela capacidade de escolher quem oferece mais.


Liberdade não é escolher o próprio preço. Liberdade é não ter preço.


O patriarcado também cobra seu preço dos homens


Essa mesma estrutura também aprisiona homens.


Muitos aprendem desde cedo que seu valor depende da capacidade de produzir, ganhar, sustentar, pagar e proporcionar.


O recado é brutal: seja bem-sucedido ou você valerá menos.


Assim, alguns homens acabam tentando comprar aquilo que temem não conseguir conquistar pelo afeto. Dinheiro transforma-se em instrumento de poder, mas também numa máscara para inseguranças.


Forma-se então uma engrenagem perversa:

A mulher aprende que será valorizada pelo quanto é desejada.

O homem aprende que será valorizado pelo quanto consegue proporcionar.

Ela precisa continuar desejável.

Ele precisa continuar economicamente útil.

Nenhum dos dois está verdadeiramente livre.

Apenas desempenham papéis antigos com estética contemporânea.


Quando pessoas se tornam descartáveis


A sociedade de consumo tornou tudo isso ainda mais intenso.


Aplicativos nos apresentam seres humanos por fotografias, pequenas descrições e movimentos de um dedo.


Gostou.

Não gostou.

Próximo.


Sempre parece existir alguém mais bonito, mais jovem, mais rico, mais interessante, mais influente.


Mas pessoas reais envelhecem. Adoecem. Engordam e emagrecem. Perdem dinheiro. Fracassam. Ficam cansadas. Passam por períodos difíceis e, às vezes, precisam de nós justamente quando têm menos a oferecer.


É nesse momento que aparece a diferença brutal entre amar alguém e consumir aquilo que alguém proporciona.


Dinheiro importa. Beleza e atração também. Sexo, admiração, estabilidade e compatibilidade financeira fazem parte da vida.


O problema começa quando uma característica deixa de ser parte da pessoa e passa a determinar o "valor" da pessoa.


Um homem que perde patrimônio não perde dignidade.


Uma mulher que envelhece não perde valor.


Parece óbvio. Mas talvez ainda precisemos repetir o óbvio.


Amor começa onde termina a tabela de preços


Talvez exista uma pergunta que todos deveríamos fazer sobre nossas relações:

O que permaneceria se aquilo que inicialmente me atraiu desaparecesse?

Se o dinheiro acabasse?

Se o corpo mudasse?

Se chegassem as rugas?

Se o status desaparecesse?

Se a doença aparecesse?

Se aquela pessoa precisasse de mim justamente quando tivesse muito pouco para oferecer?


Existe uma enorme diferença entre deixar de amar alguém e descobrir que nunca amamos aquela pessoa — amávamos apenas aquilo que ela nos proporcionava.


Quem procura somente patrimônio sempre encontrará alguém mais rico.

Quem procura apenas beleza encontrará alguém mais bonito.

Quem procura juventude encontrará alguém mais jovem.

Essa competição nunca termina.


E há uma verdade especialmente cruel nesse mercado: quem aceita tratar pessoas como descartáveis precisa admitir que também poderá ser descartado.


Porque ninguém permanece novidade para sempre.


Talvez amar seja justamente reconhecer no outro aquilo que não pode ser precificado: sua história, seus medos, sonhos, cicatrizes, contradições, fracassos, esperanças e toda uma existência que jamais caberá numa conta bancária ou numa fotografia.


No fim, resta uma pergunta incômoda:


Se retirássemos dinheiro, status, juventude, beleza, presentes, restaurantes, viagens e tudo aquilo que pode ser comprado, vendido ou exibido, ainda existiria ali uma pessoa que você escolheria conhecer, respeitar, cuidar e amar?


Se a resposta for não, talvez nunca tenha sido amor.


Talvez fosse apenas comércio com aparência de afeto.


Uma sociedade verdadeiramente emancipada não será aquela em que mulheres aprenderam a cobrar mais caro e homens adquiriram maior poder de compra.


Será aquela em que ninguém precise ocupar o lugar de produto ou comprador.


Liberdade não é escolher o próprio preço. Liberdade é não ter preço.


Porque pessoas não nasceram para ser compradas, utilizadas ou descartadas.


Pessoas não são mercadorias.


Se este texto tocou você de alguma forma, deixe um comentário se desejar e, sobretudo, compartilhe — o mundo precisa de mais leveza, mais leitura, mais gente disposta a refletir e mais horizontes capazes de iluminar novos caminhos.


Ismênio Bezerra

Bibliografia


BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.


BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. 2. ed. Tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.


HOOKS, bell. O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. Tradução de Ana Luiza Libânio. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.


ILLOUZ, Eva. O amor nos tempos do capitalismo. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

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