O Brasil ainda merece a camisa amarela?

Houve um tempo em que a Copa do Mundo parecia interromper a própria dureza da vida brasileira.
As ruas ganhavam cor. As casas simples ligavam televisões antigas no volume máximo. Crianças corriam vestidas de amarelo sem qualquer constrangimento político ou ideológico. Os rádios falavam mais alto. As cidades diminuíam o ritmo. O país, tão fragmentado em quase tudo, encontrava durante alguns dias uma rara experiência de pertencimento coletivo.
A Seleção Brasileira já foi mais que um time de futebol.
Ela foi espelho emocional de um povo.
Não porque vencesse sempre. Mas porque parecia representar algo maior: coragem, irreverência, talento, improviso, resistência e, sobretudo, entrega.
As grandes seleções campeãs do Brasil tinham diferenças técnicas, táticas e geracionais. A de 1958 não jogava como a de 1970. A de 1994 pouco lembrava a de 2002. Mas havia algo em comum entre todas elas: comprometimento.
Os jogadores pareciam compreender o peso simbólico daquela camisa.
Havia fome.
Havia senso coletivo.
Havia orgulho.
Havia homens que jogavam como quem carregava milhões de pessoas junto no peito.
Talento nunca foi exclusividade brasileira. O que transformava o Brasil em algo quase mítico era a combinação entre talento e alma competitiva.
As seleções campeãs transmitiam a sensação de que perder doía.
Doía de verdade.
Hoje, talvez o maior problema da Seleção Brasileira não seja técnico.
Seja emocional.
Existe uma sensação crescente de distanciamento entre os jogadores e o povo. Como se a Seleção tivesse deixado de ser uma representação nacional para se tornar apenas mais uma plataforma global de marcas, contratos, blindagens e gerenciamento de imagem.
Em muitos momentos, os atletas parecem mais preocupados em preservar personagens do que em construir legado.
Falta liderança simbólica.
Falta indignação.
Falta aquela agressividade competitiva que sempre diferenciou as seleções inesquecíveis das seleções apenas talentosas.
E talvez o torcedor perceba isso intuitivamente.
O povo brasileiro aceita perder. O futebol é imprevisível demais para exigir vitórias permanentes. O que o brasileiro não aceita facilmente é a sensação de indiferença.
Porque o torcedor não cobra apenas resultado.
Ele cobra entrega.
Carlo Ancelotti chegou cercado de expectativa, respeito e esperança. Seu currículo dispensa apresentações. Trata-se de um dos maiores treinadores da história do futebol. Mas a realidade foi mais forte que a fantasia.
Sem tempo para mudanças profundas, Ancelotti acabou não conseguindo produzir algo substancialmente diferente daquilo que os treinadores brasileiros anteriores já apresentavam.
O problema da Seleção nunca foi apenas o técnico.
É estrutural.
É cultural.
É emocional.
E talvez seja também comercial demais.
A Copa do Mundo continua sendo o maior evento esportivo do planeta, mas há muito deixou de ser apenas futebol. Hoje ela é também mercado, audiência, patrocínio, contratos bilionários, construção de imagem e interesses globais.
Nesse ambiente, o futebol frequentemente se curva ao espetáculo.
E talvez nenhum nome simbolize tanto esse conflito quanto Neymar.
Convocado mais uma vez, mesmo vivendo uma fase evidente de decadência física, técnica e simbólica, Neymar parece ter deixado de ser apenas um jogador para se tornar uma espécie de disputa entre memória e realidade.
Existe o Neymar que o Brasil sonhou.
E existe o Neymar que sobrou.
Entre lesões, interrupções, escolhas equivocadas e um personagem muitas vezes maior que o atleta, sua trajetória acabou produzindo uma sensação melancólica: a de um talento gigantesco que jamais conseguiu ocupar plenamente o lugar histórico que parecia destinado a ele.
Mas seria injusto reduzir a crise da Seleção apenas aos jogadores.
O próprio símbolo da camisa amarelinha foi ferido.
Durante décadas, ela representou encontro, festa, identidade nacional e paixão coletiva. Nos últimos anos, porém, foi sequestrada por radicalismos políticos, transformada em uniforme ideológico e empurrada para um território de disputa que jamais deveria ter ocupado.
Muita gente deixou de vestir a camisa não por rejeitar o futebol, mas porque passou a sentir que ela já não pertencia a todos.
Talvez tenha sido uma das maiores tragédias simbólicas recentes do país.
Porque quando um povo perde seus símbolos coletivos, perde também parte da capacidade de se reconhecer como comunidade.
Ainda assim, talvez exista esperança.
Mas ela não nascerá de campanhas publicitárias emocionantes.
Nem de slogans vazios.
Nem de vídeos épicos narrados por inteligência artificial.
Ela precisará nascer dentro de campo.
No gesto simples de jogadores que corram como quem entende o peso da própria camisa.
Na humildade.
Na raça.
Na entrega.
Na coragem de jogar não apenas por contratos, seguidores ou carreira internacional, mas pela responsabilidade emocional que a Seleção sempre carregou diante do povo brasileiro.
O Brasil talvez volte a amar sua Seleção.
Mas antes disso, a Seleção precisará voltar a merecer ser amada.
Porque a camisa amarela nunca foi apenas tecido.
Ela era uma promessa.
E o povo brasileiro ainda espera que alguém volte a honrá-la.
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Ismênio Bezerra
Bibliografia
A pátria em chuteiras. RODRIGUES, Nelson. A pátria em chuteiras: novas crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
Veneno remédio. WISNIK, José Miguel. Veneno remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
O negro no futebol brasileiro. FILHO, Mário. O negro no futebol brasileiro. 4. ed. Rio de Janeiro: Mauad, 2003.
A dança dos deuses. FRANCO JÚNIOR, Hilário. A dança dos deuses: futebol, cultura e sociedade. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
Futebol ao sol e à sombra. GALEANO, Eduardo. Futebol ao sol e à sombra. Porto Alegre: L&PM, 2010.
Carnavais, malandros e heróis. DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 6. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
Sobre o futebol. HOBSBAWM, Eric. Sobre história. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
A sociedade do espetáculo. DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
Modernidade líquida. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
Confederação Brasileira de Futebol. CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE FUTEBOL. História da Seleção Brasileira. Disponível em: CBF Oficial. Acesso em: 27 maio 2026.
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