Carnaval, comportamentos e valores numa perspectiva cristã.
- Ismênio Bezerra
- 11 de mar. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 7 de mar.

Dom Hélder Câmara, com a lucidez pastoral que lhe era própria, lançou uma provocação que atravessa o tempo e permanece atual: ele confessava não saber o que pesaria mais diante de Deus — se os excessos cometidos por foliões no carnaval ou o farisaísmo e a falta de caridade de quem se julga mais santo por não participar da festa. Ao concluir que o carnaval é, antes de tudo, alegria popular, Dom Hélder desloca o debate do moralismo superficial para o terreno mais profundo da consciência, da empatia e do amor ao próximo.
Sua reflexão não ignora que, como em qualquer manifestação humana, o carnaval pode abrigar excessos. Há abusos, desmedidas e comportamentos que ferem a si e aos outros. Contudo, Dom Hélder propõe uma pergunta mais incômoda: "será que o julgamento arrogante, a soberba espiritual e o desprezo pelos que vivem a cultura popular não ferem ainda mais o coração do Evangelho?" Ao colocar lado a lado o excesso do folião e o orgulho do moralista, ele revela que ambos carecem de conversão — mas que o pecado da falta de caridade costuma ser mais silencioso e, por isso mesmo, mais perigoso.
O carnaval, enquanto expressão cultural, nasce do povo e para o povo. É espaço de encontro, de riso, de corpo, de música e de pertencimento. Para milhões de pessoas, é uma pausa na dureza da vida cotidiana, uma forma de celebrar a existência apesar das dores, desigualdades e ausências. Reduzi-lo a pecado em bloco é desconhecer a complexidade da vida humana e ignorar que a cultura popular também é lugar de humanidade, resistência e esperança.
Essa leitura encontra eco direto nas palavras de Jesus. No Evangelho de Mateus (15,18), Ele ensina que não é o que entra pela boca que contamina o ser humano, mas o que dela sai, pois isso procede do coração. O ensinamento desloca o foco do comportamento externo para as intenções, atitudes e palavras que revelam quem a pessoa é por dentro. Assim, o julgamento preconceituoso, a condenação apressada e a exclusão do outro dizem mais sobre quem julga do que sobre quem é julgado.
Jesus nunca se mostrou escandalizado com festas, encontros ou manifestações populares. O que o indignava profundamente era a hipocrisia religiosa, especialmente a dos fariseus, que cumpriam regras externas com rigor, mas eram incapazes de misericórdia. Ele denunciou líderes que se colocavam acima do povo, transformando a religião em instrumento de distinção moral e poder simbólico. Para Ele, a verdadeira santidade não se mede pela distância do mundo, mas pela capacidade de amar concretamente quem está nele.
Nessa perspectiva, não é o carnaval em si que contamina o ser humano. O que adoece a fé é a postura de superioridade espiritual, a crença de que Deus se alinha aos “puros” contra os “impuros”, aos “certos” contra os “errados”. Esse tipo de religiosidade gera exclusão, endurece o coração e rompe laços comunitários. Ao contrário, o Evangelho aponta para uma fé que se expressa em compaixão, humildade e respeito pelas escolhas alheias.
Dom Hélder, ao chamar o carnaval de alegria popular, convida a Igreja e os cristãos a olharem o povo não como ameaça moral, mas como lugar onde Deus também se manifesta. A crítica cristã legítima não nasce do desprezo, mas do cuidado; não do julgamento, mas do amor. Onde falta caridade, mesmo a abstinência vira vaidade espiritual.
Assim, a reflexão proposta não absolve excessos nem canoniza comportamentos, mas recorda o essencial: diante de Deus, pesa menos a aparência de santidade e mais a verdade do coração. O verdadeiro seguimento de Jesus não se constrói pela condenação do outro, mas pela conversão pessoal, pelo respeito à diversidade humana e pela disposição sincera de amar. O problema nunca foi a festa; o verdadeiro risco sempre esteve na dureza do coração que se fecha à misericórdia.
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Ismênio Bezerra
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