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Quem vai pará-lo?


A pergunta que ecoa não é sobre eliminar um homem. Não é sobre responder violência com violência. Essa lógica pertence justamente ao tipo de poder que precisa ser contido. A pergunta que realmente importa é outra, mais difícil e mais urgente: quem vai pará-lo com justiça?


Donald Trump não surgiu no vazio. Ele é, ao mesmo tempo, continuidade e radicalização de uma forma de agir no mundo que já vinha sendo praticada há décadas pelos Estados Unidos. A diferença é que, enquanto seus antecessores revestiam suas ações com linguagem diplomática, Trump expõe a lógica do poder de maneira direta: menos negociação, mais coerção; menos tratado, mais ameaça; menos multilateralismo, mais força.


Antes dele, governos norte-americanos invadiram países sob justificativas que, com o tempo, se mostraram frágeis ou equivocadas. No Iraque, sob o comando de George W. Bush, a invasão foi justificada pela existência de armas de destruição em massa. Elas nunca foram encontradas. O que ficou foi um país devastado, milhares de mortos, instituições destruídas e uma instabilidade que atravessa décadas.


No Afeganistão, a guerra iniciada após os ataques de 11 de setembro se prolongou por vinte anos. Ao final, o país permaneceu fragilizado, e as mesmas forças que haviam sido combatidas voltaram ao poder. A intervenção não construiu estabilidade duradoura — apenas prolongou o sofrimento.


Na Líbia, durante o governo de Barack Obama, a queda de Muammar Gaddafi abriu caminho para fragmentação política, conflitos internos e perda de controle estatal. Derrubar regimes mostrou-se mais fácil do que reconstruir sociedades.


Esse padrão se repete: intervenção, destruição, retirada e abandono.


Infraestruturas são arrasadas, milhares de vidas são perdidas, economias são desorganizadas e, muitas vezes, recursos naturais entram em disputa ou exploração. Depois, quando o país já está ferido, dividido e empobrecido, a presença externa diminui — e a crise permanece. Não se trata apenas de falhas estratégicas. Trata-se de um modelo de atuação que não assume plenamente as consequências do que provoca.


É nesse cenário que Trump se insere — e o torna mais explícito.


Não se trata aqui de narrativas abstratas, mas de fatos e posicionamentos públicos: a defesa de capturar líderes estrangeiros para julgamento nos Estados Unidos, quando acusações dessa natureza deveriam ser tratadas por instâncias internacionais como a Corte de Haia; o apoio irrestrito a operações militares que ampliam o sofrimento de populações civis; o uso recorrente de sanções econômicas como instrumento de pressão global; e declarações que sugerem a possibilidade de anexar territórios ou expandir influência por meio da força.


Quando um líder político fala em transformar o Canadá em parte de seu país, em adquirir a Groenlândia, em retomar o controle do Canal do Panamá ou em destruir militarmente o Irã, ele não está apenas fazendo retórica. Ele está testando limites — e, ao fazê-lo, tensiona todo o sistema internacional. O sequestro de Nicolás Maduro mostra, além da supremacia militar, total desrespeito à legislação internacional, abrindo novamente precedentes para que outras potências militares possam fazer o mesmo com países igualmente vulneráveis.


Ao mesmo tempo, o apoio dos Estados Unidos a aliados em conflitos armados levanta questões profundas. Israel tem, sem dúvida, o direito de se defender. Nenhuma nação é obrigada a aceitar ataques contra sua população. Mas o direito de defesa não pode ser confundido com o direito de destruição irrestrita. A linha entre proteção e vingança precisa ser respeitada. Quando essa linha desaparece, o que resta é sofrimento coletivo em escala massiva.


A própria Corte Internacional de Justiça já determinou medidas provisórias em casos envolvendo conflitos recentes, reafirmando que mesmo em guerra existem limites jurídicos. Esses limites existem justamente para impedir que o poder se transforme em licença para aniquilar.


Como reflexo do aumento das tensões internacionais associado às decisões e ao estilo de atuação de Donald Trump, observa-se uma intensificação de movimentos estratégicos que apontam para uma nova corrida armamentista em diversas regiões do planeta. A combinação de discursos mais agressivos, pressões econômicas, questionamentos a alianças tradicionais e menor ênfase na diplomacia tem levado países a reforçarem seus investimentos em defesa, modernização militar e desenvolvimento tecnológico bélico. Nesse cenário, cresce a desconfiança entre nações, enfraquecem-se mecanismos multilaterais e se amplia a percepção de que o equilíbrio global passa novamente pela força, reacendendo uma lógica que remete a períodos históricos marcados pela competição militar e pelo risco constante de escalada de conflitos.


Trump, nesse contexto, representa um ponto de inflexão perigoso. Ele desloca o centro da política internacional para mais perto da força bruta, enfraquecendo instituições como a ONU, relativizando alianças como a OTAN e reduzindo o espaço da diplomacia.


E é exatamente por isso que a pergunta precisa ser feita — e respondida:


quem vai pará-lo?


Não com violência. Não com morte. Não com a repetição do erro.


Mas com instituições fortes, com o funcionamento real do direito internacional, com tribunais independentes, com pressão diplomática consistente, com controle democrático interno, com imprensa livre e com uma opinião pública que não aceite a banalização da guerra como instrumento de poder.


Porque quando a força passa a substituir a justiça, o problema deixa de ser de um país ou de um líder.


O problema passa a ser do mundo inteiro.


Se este texto tocou você de alguma forma, deixe um comentário se desejar e, sobretudo, compartilhe — o mundo precisa de mais leveza, mais leitura, mais gente disposta a refletir e mais horizontes capazes de iluminar novos caminhos.


Ismênio Bezerra

Bibliografia


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