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Marcha das Margaridas: uma jornada de empoderamento e transformação

Atualizado: 20 de mar.


No coração do Brasil, entre os sulcos da terra, o murmúrio das florestas e o fluxo constante das águas, um movimento floresce com a delicadeza de quem semeia e a força de quem resiste. A Marcha das Margaridas revela-se, assim, como expressão viva da coragem das mulheres rurais — mulheres que, reunidas em coletividade, transformam silêncio em voz, invisibilidade em presença e resistência em caminho.


Como um farol de sororidade, a Marcha ilumina trajetórias historicamente apagadas, costurando esperanças e reivindicações em uma trama comum. Não se trata apenas de caminhar juntas, mas de afirmar, a cada passo, o direito de existir com dignidade, de decidir sobre a própria vida e de ocupar os espaços que por tanto tempo lhes foram negados.


Desde sua origem, no ano 2000, o movimento consolidou-se como um dos mais significativos da organização social brasileira. Articulado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), por federações, sindicatos e diversas organizações parceiras, tornou-se um território político e simbólico onde mulheres do campo, da floresta e das águas constroem, coletivamente, uma visão de país mais justo e inclusivo.


Nesse espaço, o diálogo é semente e a escuta é cultivo. Por meio de encontros, debates e processos formativos, essas mulheres elaboram uma plataforma política que ultrapassa demandas imediatas e alcança dimensões estruturais: o acesso à terra, à documentação, à produção sustentável, à proteção contra a violência e ao reconhecimento de seus direitos. Cada pauta carrega, em si, a memória de lutas passadas e a promessa de futuros possíveis.


Um dos traços mais marcantes da Marcha é a centralidade das próprias mulheres na construção de seus destinos. A Coordenação Ampliada, formada por lideranças vindas de diferentes territórios, traduz a potência da participação coletiva e desafia, com firmeza, as estruturas tradicionais de poder. Ali, o protagonismo feminino não é concessão — é conquista.


Ao longo dos anos, a Marcha das Margaridas deixou de ser apenas símbolo para tornar-se também instrumento concreto de transformação. Conquistas como o Programa Nacional de Documentação da Trabalhadora Rural, a titulação conjunta da terra, a incorporação da perspectiva de gênero nas políticas agrícolas e o reconhecimento de direitos previdenciários demonstram que a mobilização coletiva é capaz de redesenhar realidades.


Em 2023, mais de 100 mil mulheres ocuparam Brasília, vindas de todas as regiões do país. Não vieram apenas reivindicar, mas afirmar sua existência política, sua força histórica e sua capacidade de incidir nos rumos do Brasil. Cada rosto presente carregava histórias de luta, mas também de esperança — uma esperança que não se apoia na espera, mas na ação.


Inspiradas pelo legado de Margarida Alves, cuja vida foi interrompida pela violência, mas cuja memória permanece viva, essas mulheres seguem cultivando a coragem. A marcha, nesse sentido, é também um ato de memória e de continuidade, onde a dor se transforma em força coletiva e a ausência se converte em presença permanente na luta.


Mais do que um evento, a Marcha das Margaridas é um processo contínuo de construção de cidadania, de fortalecimento de vínculos e de reinvenção do possível. É a prova de que, quando mulheres se unem, não apenas caminham — elas abrem caminhos.


E, assim, entre passos firmes e vozes entrelaçadas, seguem semeando um Brasil mais justo, mais igualitário e profundamente humano.


Se este texto tocou você de alguma forma, deixe um comentário se desejar e, sobretudo, compartilhe — o mundo precisa de mais leveza, mais leitura, mais gente disposta a refletir e mais horizontes capazes de iluminar novos caminhos.


Ismênio Bezerra

Bibliografia


BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Agrário. Políticas públicas para mulheres rurais no Brasil. Brasília: MDA, 2014.

SILVA, Carmen; FARIA, Nalu; MORENO, Renata. Feminismo e luta das mulheres no campo: a Marcha das Margaridas. São Paulo: SOF, 2010.


DEERE, Carmen Diana; LEÓN, Magdalena. O empoderamento da mulher: direitos à terra e direitos de propriedade na América Latina. Porto Alegre: UFRGS, 2002.


BUTTO, Andrea; DANTAS, Isolda (org.). Autonomia e cidadania: políticas de organização produtiva para as mulheres no meio rural. Brasília: MDA, 2011.


PAULILO, Maria Ignez Silveira. Trabalho familiar: uma categoria esquecida de análise. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 12, n. 1, p. 229-252, 2004.


SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 71-99, 1995.


FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES RURAIS AGRICULTORES E AGRICULTORAS


FAMILIARES. Cadernos da Marcha das Margaridas 2023. Brasília: CONTAG/FETAGs, 2023.


ONU MULHERES. Empoderamento econômico das mulheres rurais: estratégias e desafios. Brasília: ONU Mulheres, 2018.


ANISTIA INTERNACIONAL. Direitos das mulheres e igualdade de gênero no Brasil. Londres: Amnesty International, 2022.


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