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Maceió à beira do abismo: uma crise causada pela irresponsabilidade da Braskem

Atualizado: 20 de mar.

Maceió, a bela capital de Alagoas, enfrenta uma crise sem precedentes devido à iminente possibilidade de colapso da mina da Braskem na região. O desastre, que ameaça a estabilidade do solo e põe em risco milhares de vidas, é resultado de anos de irresponsabilidade por parte da empresa e omissão por parte das autoridades públicas.


A Irresponsabilidade da Braskem: lucro a qualquer custo

O termo “capitalismo selvagem” refere-se a uma forma extrema e sem escrúpulos do sistema econômico capitalista, caracterizado pela ausência quase total de intervenção governamental nas atividades comerciais e financeiras. Nesse contexto, as forças do mercado operam sem restrições moderadas, permitindo que as empresas busquem seus interesses de lucro de maneira agressiva e muitas vezes sem consideração ética, ambiental ou social. No capitalismo selvagem, a competição é intensa, e as empresas têm total liberdade para explorar recursos, mão de obra e mercados de maneira indiscriminada, sem a fiscalização ativa e eficiente que visem a proteção ambiental, direitos trabalhistas ou equidade social.


Essa forma extrema de capitalismo, embora busque maximizar a eficiência econômica, pode resultar em desigualdades socioeconômicas significativas, gestão ambiental e exploração desenfreada de recursos naturais. O termo “capitalismo selvagem” muitas vezes é utilizado para destacar os perigos e impactos negativos de uma abordagem descontrolada do capitalismo.


A Braskem, gigante do setor petroquímico, tem sido alvo de críticas por nunca ter reforçado completamente a responsabilidade pelo afundamento do solo em Maceió. Os relatórios indicam que a mina continua a afundar, e a empresa parece mais preocupada com seus interesses financeiros – dentro da lógica do capitalismo selvagem - que com as vidas e o bem-estar das comunidades afetadas.


A busca frenética pelo lucro muitas vezes resulta em práticas irresponsáveis, e a Braskem não é exceção. O desastre iminente em Maceió é um triste testemunho de como a economia corporativa pode ter um impacto devastador nas comunidades locais.


Impacto nas Famílias: Sofrimento e Perdas Incalculáveis


Enquanto a Braskem busca soluções para minimizar seus prejuízos financeiros, as famílias de Maceió enfrentam um sofrimento inimaginável. Além das perdas tangíveis, como casas e propriedades, há perdas intangíveis que não podem ser quantificadas, como a sensação de segurança, os laços convivência, a cultura de viver em comunidade e a estabilidade emocional.


Muitas famílias estão vivendo sob tensão constante, sem saber se terão um lar no dia seguinte. A incerteza do futuro gera um impacto psicológico profundo, contribuindo para a desestruturação das comunidades afetadas.

Não aprendemos com os erros.


O Brasil tem enfrentado ao longo das décadas uma série de tragédias ambientais, muitas delas causadas por iniciativas privadas. Um dos casos emblemáticos foi o vazamento de óleo do petroleiro Tarik Iba Ziyad na Baía de Guanabara em 1975. Esse acidente, ocorrido durante o fretamento pela Petrobras, resultou no rompimento do casco do navio, despejando cerca de 6 mil toneladas de petróleo bruto na Baía. Uma mancha de óleo de 10 camadas de espessura que se formou teve consequências para a fauna marinha e o ecossistema da região, além de provocar incêndios locais.


Outro exemplo marcante foi o desastre no Vale da Morte em Cubatão, em 1980. Nessa época, a cidade de Cubatão, interior de São Paulo, foi considerada uma das mais poluídas do mundo devido à liberação massiva de gases tóxicos pelas películas do polo petroquímico local. A poluição afetou diretamente a saúde da população, resultando em aumento significativo de problemas de doenças e mortalidade. Esse caso ganhou projeção internacional, sendo inclusive chamado de “Vale da Morte” por veículos de comunicação estrangeiros.


Outra tragédia notável foi o acidente com o Césio-137 em Goiânia, em 1987. Nesse incidente, dois catadores de lixo retornaram um aparelho de radioterapia contendo abandonado o material radioativo. Ao desmontarem o aparelho, liberaram o Césio-137, causando contaminação e graves problemas de saúde para quem teve contato com o elemento. A responsabilidade recai sobre o Instituto Goiano de Radioterapia, evidenciando falhas na gestão de resíduos radioativos por uma instituição privada.


A tragédia de Brumadinho, ocorrida em 25 de janeiro de 2019, foi um dos eventos mais devastadores da história recente do Brasil. O rompimento da barragem na Mina Córrego do Feijão, de responsabilidade da Vale SA, resultou na liberação de aproximadamente 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração. O impacto foi avassalador, com uma onda de lama tóxica que destruiu comunidades, atingiu a morte de 259 pessoas, deixou diversas outras desaparecidas e contaminou extensas áreas do Rio Paraopeba. A tragédia reacendeu o debate sobre a gestão de resíduos da mineração, a fiscalização adequada por parte das autoridades e a responsabilidade das empresas em garantir a segurança das comunidades próximas.


A tragédia de Mariana, ocorrida em 5 de novembro de 2015, foi um marco trágico e precursor do desastre em Brumadinho. O rompimento da Barragem do Fundão, operado pela Samarco (joint venture entre Vale e BHP Billiton), liberou 62 milhões de metros cúbicos de lama, devastando a cidade histórica de Mariana e afetando dezenas de municípios ao longo do Rio Doce. O desastre resultou na perda de 19 vidas, destruição de comunidades inteiras e causou impactos ambientais de longo prazo. Ambos os eventos evidenciam a necessidade urgente de revisão das práticas de mineração, o fortalecimento da legislação ambiental e a implementação de medidas de prevenção e resposta a desastres para evitar que tragédias semelhantes voltem a ocorrer no futuro.


Os bairros afetados de Maceió, outrora vibrantes e cheios de vida, estão sendo lentamente destruídos pelo colapso iminente da mina da Braskem. Ruas que antes eram o cenário de histórias felizes agora testemunham a angústia de uma população que na maioria dos casos teve que abandonar tudo. A busca criminosa por lucro não apenas destruiu estruturas físicas, mas também traz laços comunitários e histórias de vida.


Não terminou...


A ação da Braskem em meio ao caos em Maceió destaca ainda mais a priorização dos interesses corporativos em detrimento da segurança e bem-estar das comunidades locais. É crucial que as autoridades intervenham de maneira eficaz, responsabilizando a empresa pelos seus atos e implementando medidas urgentes para mitigar os impactos dessa crise.

Assim como diversas outras empresas, a Braskem parece não ser impulsionada por uma forte consciência de responsabilidade ambiental e social em suas operações. Ao longo do tempo, observa-se uma tendência de priorização dos interesses financeiros em detrimento das considerações éticas e do impacto social de suas atividades.


Até o presente momento, é lamentável constatar que nenhuma empresa privada, envolvida em tragédias ambientais no Brasil, declarou eficiência na recuperação do meio ambiente e, mais crucialmente, nenhum ressarcimento adequado às comunidades afetadas. Seja nos casos de Brumadinho, Mariana ou em outros desastres ambientais, como agora em Maceió com a Braskem, as consequências devastadoras persistem sem uma resposta adequada por parte das corporações envolvidas. Vidas foram perdidas, ecossistemas foram destruídos, e comunidades inteiras foram destruídas ou viraram áreas fantasmas.


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Ismênio Bezerra

Bibliografia


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BRASKEM S.A. Relatórios de sustentabilidade e notas públicas sobre Maceió. São Paulo: Braskem, 2022.


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FOLHA DE S.PAULO. Afundamento do solo em Maceió expõe crise ambiental e urbana. São Paulo, 2023. Disponível em: https://www.folha.uol.com.br.


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FREITAS, Carlos Machado de; SILVA, Mariano Andrade da. Desastres tecnológicos e riscos ambientais no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2019.


ACSELRAD, Henri. Justiça ambiental e construção social do risco. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.


BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. São Paulo: Editora 34, 2011.


HARVEY, David. O enigma do capital e as crises do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2011.


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05 de dez. de 2023
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Excelente análise!!!

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